As ditas gerações do kpop são definidas por padrões de comportamento bem distintos, influenciados tanto pelas tendências internas da Coreia quanto pela expansão global. Ainda não há um consenso sobre o que define a 5ª geração do kpop, mas o Meu Bias propõe aqui uma reflexão que pode esclarecer dúvidas e gerar novas conversas interessantes.
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Um contexto geral sobre a 5ª geração
As mídias coreanas começaram a noticiar a chegada da 5ª geração do kpop em 2023, próximo a debuts de grupos como o ZEROBASEONE e o BABYMONSTER. Em partes, a própria MNET, que deu origem ao ZEROBASEONE através do reality Boys Planet, foi quem influenciou o início da nova geração, já que noticiava a estreia do primeiro grupo dela¹.
A princípio, apenas essa informação não seria o suficiente para marcar um ponto de virada, mas os anos seguintes deixaram claro que uma mudança no comportamento geral do público mais jovem é o que moldou essa nova geração. A sensação é quase de um “nos dê o que queremos ver, pois se não fizer sentido para nós, iremos embora”. E como é que as empresas nadariam contra essa corrente?
O caso Fifty Fifty
O grupo Fifty Fifty, estreante de novembro de 2022, teve um sucesso global com sua música de estreia, “Cupid”, mas pagou um preço alto por isso.
Quando a música virou hit em todas as plataformas, especialmente nas de vídeos curtos, as artistas do grupo tentaram defender seus direitos, mas o resultado não foi positivo nem para sua imagem, ou bolso e saúde mental². E onde estava o público que impulsionou essa viralização? Boa parte já havia dado o play no próximo hit.
As redes sociais muitas vezes geram uma ilusão através de seus números, fazendo acreditar que a viralização é sempre positiva, quando na realidade não gera um sentimento de pertencimento genuíno.
Citamos o caso do Fifty Fifty como exemplo porque, para nós, do Meu Bias, a proporção que ele tomou gerou um alerta na indústria do kpop sobre a sua globalização, que tem acelerado a exposição de alguns grupos, mas sem gerar aquele sentimento enraizado dos fandoms das primeiras gerações. Por isso, o ocorrido evidenciou como o consumo do kpop mudou rapidamente nos últimos anos.
Além disso, o kpop sempre se pautou na ideia de que a opinião dos fãs tinha uma grande influência no sucesso de seus artistas, e isso só cresceu ao longo dos anos. Não basta mais apenas maquiá-los para o triunfo, eles devem retroalimentar padrões mais exigentes que se intensificam com a dinâmica atual das redes.
Características da 5ª geração do kpop
Considerando isso, além de uma relação de certa forma instável entre parte dos fãs e idols, existem algumas características em comum que acreditamos que ajudam a reforçar a 5ª geração.
Músicas com tempo reduzido, muitas com menos de 3 minutos
Desde que as redes sociais se abriram para os vídeos curtos, os idols começaram a interagir entre diferentes grupos fazendo desafios de suas músicas de comeback. Como não há muito tempo para mostrar em tela, é necessário ter um refrão com passos de dança que chamem a atenção, ou uma letra bastante chiclete. E, consequentemente, quanto menor ela for, mais fácil será de reproduzi-la nesses meios.
Por isso, tem se tornado cada vez mais comum ouvirmos músicas de kpop com menos de 3 minutos, sejam singles ou b-sides. Alguns exemplos, além do citado acima, são “F Girl“, do Baby DONT Cry, com 2:30 e “Lucky Girl Syndrome” do ILLIT, com 2:20.
Porcentagem do inglês muito alta nas letras
A título de exemplo, se considerarmos todas as palavras de “Burning Up”, do grupo MEOVV, a canção é cerca de 80% em inglês, com poucas inserções do coreano no meio das frases. Pode ser que essa seja uma estratégia para que canções focadas em viralizar globalmente ainda se apoiem no sucesso do kpop, mas a desproporcionalidade tem gerado discussões sobre até que ponto essas músicas ainda se enquadram como kpop.
Isso não é um quesito para definir se um trabalho é bom ou ruim, mas há discussões que podem sim serem feitas com respeito. Se o inglês está dominando o kpop, então ele está correndo o risco de se aproximar mais do pop global e de se afastar de suas origens.
Esse ponto poderia estar gerando um distanciamento de quem acompanha a hallyu há anos, por não se identificar mais com os novos trabalhos, além de reforçar o contexto dado acima. Se a relação do público com este produto já não é a mesma, uma parte essencial de sua identidade poderia também se perder. Afinal, o kpop sempre se fortaleceu de uma cultura de fãs, e não sabemos como ele sobreviverá sem seu fandom.


